A voz humana

Apesar de cada vez mais vez mais nos conectarmos por meio de teclados e imagens, ainda somos em boa parte conseqüência da nossa oralidade. Usando somente a voz, sem deixar uma só palavra escrita, Cristo e Sócrates mudaram o mundo. O mau uso da palavra é destruidor. Dilma, aquela dos anacolutos compulsivos, não conseguiu colocar de pé nem uma frase nem a economia. Para encantar investidores e clientes, empreendedores contam a sua história do futuro. Com força imbatível, a palavra pode iludir, uso que dela fazem os marqueteiros e os sem caráter. Não raro falamos com desleixo às pessoas que amamos, e reservamos aos estranhos o nosso melhor som. No dia a dia fazemos trapalhadas ao desafinar nas palavras. No seu livro Sound Business, o especialista inglês Julian Treasure sugere que falar bem é uma condição para o sucesso em todas as faces da vida e dá alguns conselhos. Nunca se deve falar mal de alguém ou fazer julgamentos. O cumprimento “olá, tudo bem?” exige a resposta “sim, tudo bem”  e não uma cachoeira de queixumes e lamúrias. São pecados imperdoáveis culpar os outros pelos próprios fracassos, mentir em qualquer circunstância, ser o dono da verdade e confundir fatos com opiniões. A palavra só existe para melhorar o silêncio. Perguntar mais do que responder demonstra sabedoria além de estimular o ego do interlocutor. Eu penso que o mais difícil mesmo é aguentar quem fala sem parar e sem pensar. O maior respeito que se pode oferecer a quem ouve é processar e lapidar as palavras durante o seu percurso da mente até a boca, para resumi-las, dar-lhes humor, elegância e síntese. Uma personagem do escritor goiano José J. Veiga diz que “a fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim que falasse à toa ia desperdiçando metragem. Um belo dia abriria a boca e só sairia vento”.

Um abraço, do Fernando Dolabela.

 

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